terça-feira, 22 de junho de 2010

Hidroponia

Quando me mudei para cá, havia em frente à minha casa um senhor de idade avançada. Ele tinha por hábito manter seu quintal de terra sempre limpo, porém vazio, com exceção de uma pequena muda, que cultivava diariamente. Eu a podia ver com perfeição de minha janela. Criei empatia pela planta, de maneira que me atei à cultivá-la mentalmente.
Durante duas estações à observei. Um dia ela não estava mais lá. Pude ver que em seu lugar estava a marca de um buraco cavado e coberto.
Tempos depois, ali surgiu uma espécie que eu desconhecia, e por isso mesmo, me fez curioso à maneira da primeira. Passei a atentar também para o velho, e vi que seguia com dedicação crescente.
Ela já ganhava formas de árvore quando sumiu.
Acompanhar esse processo cíclico e absurdo logo tornou-se minha principal atividade.
Reservei um sábado inteiro à vigilia: uma terceira muda havia sido posta, e crescia. Deduzi o que qualquer um deduziria.
Eis que, no final da tarde, vi este ancião, de mãos nuas, arrancar o verde do solo, pondo à mostra raízes grandes. Antes disso, praguejou algo que não entendi. Ali ficou por algum tempo, depois foi para dentro levando o restolho ainda firme nas mãos.
Imaginei que tenha repetido tanto a sequência que seu quintal ficasse infértil.
Fui informado do óbito de meu vizinho. Algum tempo depois, a casa deu lugar a um prédio mais alto que o meu.
Hoje eu tenho idade semelhante à do jardineiro.
Há quem tenha me dito que fosse doente. Conhecidos disseram que procurava a perfeição, e outros que não era satisfeito.
Eu, até hoje, não concluí nada.
Não concluí nada.

1 comentários:

Elsa Villon disse...

Talvez o velho precisasse plantar um tubérculo, onde o que está enterrado é mais relevante do que a superfície.